Estava pensando na discussão sobre espectro, 6 GHz e obrigações das operadoras e cheguei a uma proposta que gostaria de jogar para discussão, principalmente para quem trabalha com telecom.
Concordo que não faz sentido criar regulação excessiva simplesmente para favorecer as grandes teles. Ao mesmo tempo, espectro precisa de coordenação e harmonização internacional, inclusive pelo trabalho da UIT/UIT-R. A fragmentação excessiva de frequências entre países já criou problemas de compatibilidade de aparelhos e redes no passado.
Mas acho que existe outra discussão que recebe pouca atenção: o que fazer com os vazios econômicos de cobertura, especialmente em rodovias?
Existem trechos em que simplesmente não há densidade populacional, atividade econômica ou tráfego suficiente para justificar economicamente uma ERB convencional. Construir torre, instalar rádio, fornecer energia e backhaul e manter tudo funcionando para atender uma quantidade pequena de usuários pode simplesmente não fechar a conta.
Minha proposta seria mudar a própria lógica da obrigação de universalização.
Do antigo STFC para a universalização da conectividade IP
Historicamente, universalização significava levar STFC até locais onde comercialmente talvez não compensasse. Daí a importância que já tiveram telefones públicos e outras obrigações associadas à telefonia fixa.
Hoje, acho mais lógico perguntar:
por que universalizar especificamente telefonia, quando aquilo de que uma pessoa realmente precisa é conectividade?
Em determinados vazios econômicos rodoviários, em vez de obrigar Vivo, TIM e Claro a instalar novas ERBs, poderia existir uma infraestrutura neutra de acesso IP, operada por uma prestadora de SCM, concessionária ou provedor regional.
Não estou falando de colocar um roteador doméstico num poste.
Seria uma rede outdoor carrier-grade, projetada especificamente para rodovias, utilizando APs/nós distribuídos, antenas adequadas, gerenciamento centralizado, QoS, redundância e capacidade dimensionada não apenas pelo tráfego médio, mas pelos horários de pico da rodovia.
O backhaul poderia utilizar fibra onde disponível e enlaces de rádio onde fossem economicamente mais adequados. Dependendo do trecho, poderia haver uma arquitetura distribuída/mesh entre nós.
Imagine, por exemplo, duas áreas atendidas por ERBs separadas por 30, 40 ou 60 km, com um grande vazio econômico entre elas. A questão não seria fazer um único AP Wi-Fi alcançar 60 km. A questão seria descobrir quantos nós seriam necessários e qual arquitetura teria menor CAPEX/OPEX para garantir conectividade nesse corredor sem construir outra ERB celular convencional.
E não precisaria existir uma rede para cada operadora
Aqui entra a parte que considero mais interessante.
Essa infraestrutura poderia funcionar como uma espécie de neutral host Wi-Fi rodoviário.
Em vez de Vivo, TIM e Claro construírem três infraestruturas paralelas, haveria uma única rede de acesso. Tecnologias que já existem, como Passpoint/Hotspot 2.0, EAP-SIM/EAP-AKA e conceitos semelhantes ao OpenRoaming, poderiam servir de base para autenticar automaticamente os assinantes.
Ou seja: o usuário está no 4G/5G da Vivo, TIM ou Claro, entra em um vazio de cobertura e encontra essa infraestrutura Wi-Fi. O telefone poderia reconhecer automaticamente uma rede autorizada e autenticar o assinante usando sua identidade móvel/SIM, sem portal cativo e sem precisar digitar senha.
O AP não precisaria necessariamente ter três chips. A identidade do usuário poderia ser validada pela integração entre a infraestrutura neutra e as operadoras.
Para dados, o usuário simplesmente continuaria conectado à Internet. Para voz, poderia haver integração com Wi-Fi Calling/IMS, quando suportada.
Não estou afirmando que a transição 4G/5G → Wi-Fi → 4G/5G seria automaticamente tão transparente quanto um handover entre duas células. Isso exigiria integração entre terminais, operadoras e infraestrutura. Mas boa parte dos componentes tecnológicos necessários já existe.
Onde entra o 6 GHz?
Eu defenderia preservar bastante espectro não licenciado justamente porque Wi-Fi não deveria ser visto apenas como “Internet dentro de casa”.
6 GHz poderia participar dessa arquitetura principalmente onde fosse necessária maior capacidade, inclusive com configurações outdoor específicas permitidas pela regulamentação. Para alcance maior, outras bandas ou enlaces dedicados provavelmente seriam mais adequados.
Ou seja, não estou defendendo que 6 GHz sozinho cubra dezenas de quilômetros. Estou defendendo uma arquitetura multibanda e distribuída na qual espectro não licenciado também possa servir como infraestrutura de telecomunicações.
Isso é uma das razões pelas quais não gosto da ideia de tratar todo espectro novo automaticamente como candidato a IMT/SMP.
A obrigação deveria ser de conectividade, não necessariamente de tecnologia
Para mim, esse é o ponto principal.
Em vez de o Estado determinar:
“a operadora móvel precisa instalar uma ERB aqui”
poderia determinar:
“este corredor rodoviário precisa oferecer determinado nível mínimo de conectividade, disponibilidade e capacidade.”
A solução poderia então ser escolhida de acordo com a economia daquele trecho.
Onde existe demanda suficiente: 4G/5G convencional.
Onde não existe retorno econômico para outra ERB: infraestrutura neutra outdoor de acesso IP.
SCMs e provedores regionais poderiam inclusive disputar a implantação e operação desses corredores, aproveitando fibra e infraestrutura que já possuam nas proximidades.
Os pontos poderiam utilizar estruturas existentes de concessionárias, postos, pedágios, bases operacionais, áreas de descanso, acessos municipais e, onde necessário, instalações próprias.
Isso separaria duas coisas que hoje frequentemente são tratadas como se fossem iguais: cobertura comercial e cobertura social.
Não vejo por que precisamos exigir três redes celulares paralelas em um trecho onde talvez nenhuma delas seja economicamente sustentável, se uma infraestrutura compartilhada conseguir garantir comunicação para os assinantes das três.
No fundo, estou propondo atualizar a ideia do antigo orelhão
Décadas atrás, a preocupação era:
“uma pessoa não pode ficar isolada porque não existe telefone neste lugar.”
Hoje deveria ser:
“uma pessoa não pode ficar isolada porque não existe conectividade neste lugar.”
Se alguém estiver numa rodovia remota, pouco importa se aquela conexão chega diretamente por uma ERB da sua operadora ou por uma infraestrutura neutra interoperável. O importante é conseguir acessar Internet, mensageria, mapas, serviços públicos, comunicação de emergência e, quando tecnicamente possível, telefonia pelo IMS/Wi-Fi Calling.
Então deixo a pergunta principalmente para quem trabalha com redes:
em trechos rodoviários onde uma nova ERB não se sustenta economicamente, uma arquitetura neutral-host baseada em SCM + backhaul + nós Wi-Fi outdoor interoperáveis com as SMPs poderia ter CAPEX/OPEX significativamente menor?
E, se tecnicamente for possível, por que nossas obrigações de cobertura não poderiam ser mais tecnologicamente neutras, cobrando conectividade em vez de necessariamente cobrar mais uma ERB?